Primeira infância e a construção de uma sociedade sustentável

outubro / 21

Quando se fala em desenvolvimento econômico e social, é comum basear-se no Produto Interno Bruto (PIB) e no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) para presumir se determinada população vive melhor do que outra. Alguns especialistas, no entanto, acreditam que há métricas mais fidedignas para mensurar a qualidade de vida de uma população – como a taxa de mortalidade infantil. É o que defende Vaclav Smil em seu livro “Números não mentem: 71 coisas que você precisa saber sobre o mundo”.

Cientista, analista político e um dos autores favoritos de Bill Gates, Vaclav Smil argumenta que a mortalidade infantil é um indicador poderoso, visto que só é possível alcançar baixas taxas quando se investe em uma combinação de iniciativas, como cuidados pré-natais e neonatais, nutrição materna e infantil adequadas, atenção integral à saúde, acesso a boas condições sanitárias e apoio psicossocial para famílias desfavorecidas. Smil reconhece o desafio de reduzir a mortalidade infantil em países populosos, com sociedades heterogêneas, altas taxas de imigração e pouco investimento em políticas públicas, mas defende que essa métrica captura uma série de pré-requisitos para a sobrevivência quase universal do período mais crítico da vida: o primeiro ano.”

Muito antes da análise de Vaclav Smil – mais precisamente, desde a década de 90 –, já entendíamos a importância dos cuidados na primeira infância e seu papel na construção de uma sociedade mais justa. Esse foi um dos preceitos sob os quais o Programa Einstein na Comunidade de Paraisópolis (PECP) foi idealizado e passou a implementar ações pioneiras de saúde, educação e redução das desigualdades na segunda maior comunidade de São Paulo.

Primeira infância e desenvolvimento integral

Há uma extensa produção bibliográfica destinada a compreender como as experiências na primeira infância (período entre 0 e 6 anos) têm um papel fundamental na formação do adulto.

No estudo “Dos neurônios à vizinhança: a ciência do desenvolvimento na primeira infância”, Jack Shonkoff e Deborah Phillips apontam que crianças com desenvolvimento integral saudável nos primeiros anos de vida se adaptam melhor a diferentes ambientes e têm mais facilidade em adquirir novos conhecimentos, contribuindo para que, no futuro, tenham mais chances de atingir bom desempenho escolar, realização pessoal, vocacional e econômica.

Aqui, é importante chamar a atenção para o conceito de desenvolvimento integral, que está relacionado a uma visão ampla e holística da saúde – e que é uma das bases do PECP desde sua criação. O acesso a cuidados de saúde – pré-natal, primeiras vacinas, aleitamento, nutrição, diagnóstico precoce e tratamento de doenças infantis – são primordiais, mas precisam estar ancorados em um ambiente familiar afetivo e seguro, no acesso à educação de qualidade, no desenvolvimento de boas relações interpessoais, habilidade de demonstrar sentimentos e necessidades. Por isso, além das iniciativas destinadas a bebês e crianças, o Programa foi, ao longo dos anos, incorporando atividades para todo o núcleo familiar, desde atendimento psicológico e de saúde até a capacitação de adultos para inserção no mercado de trabalho e geração de renda.

Do ponto de vista econômico, investir no desenvolvimento e na aprendizagem durante a primeira infância pode trazer um retorno maior para a sociedade do que investimentos em qualquer outra etapa da vida, com resultados consistentes e duradouros – um exemplo concreto do que deve contemplar, na prática, uma iniciativa de ESG.

Conforme evidências reunidas em “O impacto do desenvolvimento na primeira infância sobre a aprendizagem”, do Núcleo Ciência Pela Infância (NCPI), investir na formação de capital humano é ainda mais eficiente e consistente em populações vulneráveis, com resultados duradouros (perdurando até a idade adulta – 21 a 40 anos). Além disso, uma análise de programas educacionais em diferentes faixas etárias demonstrou que a taxa de retorno para cada dólar investido é maior quanto mais cedo for implementada a iniciativa (conforme gráfico abaixo):

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Fonte: O IMPACTO DO DESENVOLVIMENTO NA PRIMEIRA INFÂNCIA SOBRE A APRENDIZAGEM – Estudo I, Comitê Científico Núcleo Ciência Pela Infância, 2014. Modificado de: Heckman, J. Skill Formation and the Economics of Investing in Disadvantaged Children. Science, 30 June 2006: 312 (5782), 1900-1902. [DOI: 10.1126/science.1128898].

Empresas, instituições e sociedade devem, cada vez mais, buscar métricas e evidências que validem estratégias empregadas em programas sociais. Mas não devemos esquecer, especialmente lidando com o público infantil, que brincar é fundamental. Atividades lúdicas, educativas, que promovam as relações interpessoais, a criatividade e a diversão são fundamentais para a construção de uma infância feliz.

Cuidar e proteger a infância para construir uma sociedade mais empática, igualitária e sustentável: há 23 anos uma bandeira do Programa Einstein na Comunidade de Paraisópolis (PECP).

Telma Sobolh

Presidente do Voluntariado Einstein | Idealizadora do Programa Einstein na Comunidade de Paraisópolis | Referência no Terceiro Setor

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